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REALISMO E NATURALISMO
José Maria Eça de Queirós nasceu em 1845 e faleceu em 1900 . Considerado o mais importante prosador realista e dos melhores da literatura portuguesa , Eça de Queirós deixou uma imensa produção literária , que muita influência exerceu sobre a evolução do próprio romance em língua portuguesa . Participou ativamente das polêmicas de seu tempo por meio de escritos críticos ( As Farpas ) , de conferências ( participou dos debates e foi um dos que falou nas Conferências Democráticas do Cassino Lisbonense ) , de sua copiosa correspondência e , sobretudo , por meio das próprias obras de ficção .
Com a publicação de O Crime do padre Amaro , em 1875 , Eça de Queirós inicia o romance realista em Portugal , apresentando nessa obra algumas características básicas de sua postura literária : crítica violenta da vida social portuguesa , denúncia da corrupção do clero e da hipocrisia dos valores burgueses . Essas características acentuam-se ainda mais no romance O Primo Basílio , impiedosa expressão da decadência da sociedade burguesa . Sua visão corrosiva e satírica , por outro lado , manifesta-se em O Mandarim e A Relíquia .
Com Os Maias , porém , em 1888 , observa-se uma mudança nessa atitude irreverente e destruidora de Eça de Queirós . Nas palavras do crítico João Gaspar Simões , "enquanto em toda a sua obra anterior , Eça de Queirós se limitara a desenrolar o sudário dos pecados sociais do homem e apontar as mazelas da vida social portuguesa , neste romance deixa transparecer os mistérios do destino e as inquietações do sentimento , as apreensões da consciência e os desequilíbrios da sensualidade . "
Segue-se então uma nova fase nova evolução literária de Eça de Queirós , em que a descrença no progresso e nos ideais revolucionários se manifesta na expressão saudosa da vida do campo e na valorização das virtudes nacionais. É o momento de obras como A Cidade e as serras e A Ilustre casa de Ramires , de contos como Suave milagre e de biografia religiosas .
A crítica literária costuma identificar três fases distintas na obra de Eça de Queirós .
A primeira fase compreende , basicamente , crônicas jornalísticas reunidas posteriormente em volume , sob o título de Prosas bárbaras . Nessa fase , Eça escreveu um romance , O mistério da estrada de Sintra , em parceria com Ramalho Ortigão . Um realismo ainda incipiente convive com heranças românticas mal disfarçadas . O próprio escritor tentou fazer com que esse início de carreira fosse esquecido . De fato , trata-se da parte menos significativa da sua produção literária .
A segunda fase tem início com a publicação do romance , O crime do padre Amaro , em 1875 . Três anos depois , o autor daria continuidade a ela com O primo Basílio . Em 1880 , escreve Os Maias , contando uma história incestuosa , bem ao gosto naturalista . Trata-se da fase mais caracteristicamente realista-naturalista do autor . Seus romances estão impregnados de elementos próprios do estilo , principalmente porque esboçam um panorama de crítica social e cultura da vida portuguesa , notadamente do ambiente burguês . A ironia utilizada nesses romances desmascara o comportamento hipócrita e ocioso da burguesia lisboeta . Destaque-se , contudo , a originalidade do estilo de Eça de Queiroz, que dotou a língua portuguesa de um novo ritmo de fase , com uma adjetivação surpreendente .
A terceira fase mostra um escritor mais confiante em seus próprios recursos expressivos , dando livre vasão ao seu lirismo . Escapando da rigidez das normas realistas- naturalistas , confere lugar de destaque à fantasia , sem abandonar o registro crítico realista . Em romances como A relíquia ( 1887 ) , A ilustre de Ramires ( 1897 ) e A cidade e as serras ( 1901 ) , o escritor se permite alguns vôos de imaginação . Acrescente-se a nota saudosista das tradições portuguesas . Eça , ainda e sempre um crítico do convencionalismo lusitano , agora , de longe ( por força de suas missões diplomáticas ) , observa a pátria com mais complacência . Sua linguagem vai assumindo um registro cada vez mais pessoal , terminando por ser marcadamente impressionista , muito distante da objetividade exigida ao romance realista-naturalista típico .
a Ilustre Casa de Ramires apresenta duas narrativas : a vida do fidalgo Gonçalo Mendes Ramires e a vida de seu antepassado Tructesindo . A obra satiriza a vida política provinciana de Portugal , mas é também uma tentativa de reelaboração do antigo nacionalismo colonizador . Portugal é representado pelo herói Gonçalo : entusiasta e inteligente , mas fraco , doce , ingênuo , isto é , sem a energia de seus ancestrais .
A Cidade e as Serras é um romance que defende a tese de que a vida no campo , na aldeia , é preferível à dos centros urbanos , caracterizados como mausoléus . A narrativa ironiza o progresso mecânico , o convencionalismo urbano e o desfibramento que vinha da ociosidade gerada pelo dinheiro .
O CRIME DO PADRE AMARO ( 1875 )
A ILUSTRE CASA DE RAMIRES ( 1897 )