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FERNÃO LOPES
GIL VICENTE
O mais importante prosador medieval português era de família humilde , e não se conhecem , as datas de seu nascimento e morte ; ele viveu por volta de 1380 a 1460 .
São atribuídas a Fernão Lopes as seguintes Crônicas de D. Pedro , Crônica de D.Fernão , Crônica de D. João I ( 1a. e 2a. partes ) .
Apesar de exercer atividades de cronista desde muitos anos , só em 1434 ele é oficialmente encarregado pelo rei D. Duarte de "pôr em crônica as histórias dos reis que antigamente foram em Portugal ", além dos feitos de D. João I .
Embora seja considerado o pai da historiografia portuguesa pelo alto nível de sua obra comparativamente às de outros cronistas , deve-se considerar que muitas obras dessa época desapareceram , não nos permitindo verificar hoje até aonde vai a dívida de Fernão Lopes para com seus antecessores , cujos escritos ele certamente conheceu .
Por outro lado , é inegável seu espírito de objetividade e justiça na análise de documentos históricos , que ele , como guarda-mor dos arquivos do Estado , podia consultar . Muito cauteloso ao confrontar textos , ao interpretar episódios , ao apreciar fatos , Fernão Lopes nos deixou uma lição de ponderação diante da História que até hoje continua válida .
Contemporâneo da ascensão da dinastia de Avis ao trono , sentiu de perto a força do povo nas lutas pela liberdade e, ao escrever suas crônicas , não esqueceu de considerar esse aspecto no processo do desenvolvimento histórico . Aliás , Fernão Lopes manifesta uma visão bastante moderna da História : contrariamente a outros autores medievais , para ele a história de um povo não era constituída apenas pelas façanhas dos reis e cavaleiros , mas também por movimentos populares e forças econômicas . Procurando reconstituir todo o clima das épocas tratadas , descreveu não só o ambiente das cortes mas também as aldeias , as rebeliões das ruas ao lado dos combates dos exércitos , o sofrimento das cidades sitiadas , as alegrias das vitórias , as festas e as dores . O seu interesse pelo lado humano dos fatos que determinam a História é evidente , não poupando , inclusive , críticas a reis e nobres .
Para transmitir essa visão de conjunto , Fernão Lopes desenvolveu dotes de verdadeiro escritor , para que os acontecimentos narrados , de acordo com sua importância , fossem organizados num todo coerente . E as suas crônicas revelam claramente essas qualidades , deixando também perceber a influência das leituras das novelas de cavalaria , tão populares nesse tempo . De modo geral , destacam-se na sua prosa : grande habilidade na estruturação de cenas e na descrição de movimentos de massa ; uso adequado de diálogos que transmitem vivacidade à narrativa ; interesse na análise psicológica das personagens enfocadas ; linguagem bem trabalhada e pessoal ,onde não são raros os termos populares .
Além disso , suas crônicas assumem um tom épico , pois ele se irmana ao povo português oprimido ao narrar suas lutas , sacrifícios e vitórias . Em sua obra , a nota de ardente nacionalismo se faz ouvir claramente , e mesmo tratando de reis é o povo português que se destaca , na luta contra a opressão dos senhores feudais ou contra os castelhanos em defesa de sua autonomia .
Todas essas características , tanto historiográficas como artísticas , fazem de Fernão Lopes uma figura destacada na literatura portuguesa e seguramente o melhor prosador medieval .
A biografia de Gil Vicente ainda permanece um mistério em muitos aspectos . Não há provas definitivas que possam estabelecer com segurança sua identidade . Calcula-se que tenha nascido por volta de 1465 .
Há poemas seus no Cancioneiro geral , organizado por Garcia de Resende e publicado em 1516 . A sua carreira teatral , por outro lado , começou de forma inusitada ; por ocasião do nascimento do filho de D.Manuel e de D. Maria de Castela , em 1502 , ele entrou nos aposentos reais e , diante da corte surpresa , declamou um monólogo que tinha escrito em castelhano , à semelhança de Juan del Encina , o Monólogo do vaqueiro ( ou Auto da visitação ) , em que um simples homem do campo expressa sua alegria pelo nascimento do herdeiro , desejando-lhe felicidades . A interpretação entusiasmou a corte , que lhe pediu a repetição na passagem do Natal . Gil Vicente atendeu aos apelos , porém compôs um outro texto , o Auto pastoril castelhano , que também fez sucesso . Tinha início , assim , uma brilhante carreira , que se estenderia por mais de trinta anos . Sua última peça é de 1536 , e depois dessa data não há mais notícias suas . Preparava uma edição de sua obra quando faleceu . Luís Vicente , seu filho , publicou em 1562 a Copilaçam de todalas peças de Gil Vicente , que deixa muito a desejar por ser incompleta e pelas alterações em vários textos .
A sua participação na vida da corte foi intensa e variada , tendo inclusive recebido prêmios de D.João III . Várias peças suas circularam sob forma de cordel e , por ocasião do estabelecimento da Inquisição em Portugal , algumas foram proibidas .
Dessa forma , pouco se conhece de concreto sobre a vida do homem Gil Vicente , mas as numerosas peças que nos restaram bastam para avaliar o talento indiscutível do escritor Gil Vicente , justamente considerado o fundador do teatro português .
O caráter popular : Embora freqüentador da corte , Gil Vicente é um artista profundamente enraizado nas tradições populares . Em suas peças vemos desfilar toda a galeria de tipos humanos da sociedade portuguesa , de reis a camponeses , de clérigos a cavaleiros , de princesas a alcoviteiras . A poesia popular e os costumes folclóricos também são elementos de que se valeu Gil Vicente para a composição de seu teatro . A linguagem rica e variada das personagens , de acordo com sua origem e posição social , é outro aspecto importante da arte vicentina . Aliás , a riqueza e vivacidade do diálogo , elevando a palavra a um nível sem precedente na época , são a sua maior contribuição para o estabelecimento de um teatro literário português , bem distante das rústicas encenações de então .
O uso do verso não tornou artificial a linguagem teatral vicentina . Sabendo desenvolver com muita arte e inteligência as potencialidades da língua portuguesa ( e castelhana ) , Gil Vicente explora o trocadilho , os ditos populares , utiliza-se de falares regionais , aproveita ( como trovador que foi ) a beleza da linguagem das cantigas e a suavidade dos hinos religiosos .
Por outro lado , esses elementos estilísticos só são chamados à cena para que se representem , com mais fidelidade , as situações dos homens da época . O que interessa a Gil Vicente é a vida quotidiana , é a representação dos problemas de seu tempo . E aí passamos a outro aspecto da arte vicentina :a crítica social .
A CRÍTICA SOCIAL
Pode-se dizer que o teatro popular de Gil Vicente expressa uma visão extremamente crítica da sociedade da época .
Sem fazer distinção entre as classes sociais , coloca o autor em cena os erros e vaidades de ricos e pobres , nobres e plebeus ; censura a hipocrisia dos frades que não fazem o que pregam ; denuncia os exploradores do povo , sejam eles juízes ou sapateiros ; desnuda a imoralidade das alcoviteiras e satiriza os velhos sensuais ; ridiculariza os supersticiosos e os charlatães . No conjunto , seu teatro apresenta um vasto painel crítico das classes sociais do fim da Idade Média portuguesa . Tentando alcançar a consciência de cada homem , Gil Vicente deixa explícito em suas peças que seu objetivo não é apenas divertir mas sim destacar os vícios de uma sociedade cada vez mais materialistas e corrupta para reconduzi-la ao caminho do Bem .
Essa posição crítica é , no fundo , uma tentativa de volta ao passado . Contemporâneo das modificações operadas na sociedade portuguesa em função do desenvolvimento comercial gerado pelas conquistas ultramarinas , o espírito medieval de Gil Vicente não encontra lugar na nova ordem que se vai construindo . Daí seu ataque ferino a todas as classes sociais , que são chamadas a uma reconsideração de atitudes e valores . Embora vivendo em pleno Renascimento , para Gil Vicente o homem não era a medida de todas as coisas . A concepção teocêntrica da vida e a fidelidade aos valores espirituais ainda norteiam sua visão crítica. Como bem resumir a estudiosa Carolina Michaëlis , "além de poeta , Gil Vicente era pensador , e era cristão de fé medieval . Colocado nos umbrais do tempo moderno , emancipado , e só de leve atingido pelo bafo humanista do Renascimento com seus gozos intelectuais e aristocráticos , ele tinha sempre em mente o mundo do além ; preocupava-se com a salvação da alma e o bom emprego de cada dia do capítulo da vida que passamos neste mundo terrestre . Tinha simpatia pelos humildes , ingênuos e perseguidos ; antipatia pelos prevaricadores e devassos . "
Gil Vicente escreveu mais de quarenta peças , inclusive algumas em castelhano e outras bilíngües . Apenas para efeito didático , já que muitas delas não apresentam diferenças bem nítidas , podemos agrupar as principais em dois grupos , de acordo com sua preocupação dominante .
peças de crítica social : Quem te farelos ? - em que um escudeiro pobretão procura namorar uma certa moça mas é enxotado pela mãe desta ; Auto da Índia , que apresenta engajado nas expedições de ultramar ; Farsa de Inês Pereira , que aborda o tema da mulher impertinente , escolhe um tolo a quem possa enganar . É a ilustração do dito popular : "Mais quero asno que me leve que cavalo que me derrube ". O Velho da horta , em que se ridiculariza a paixão súbita de um velho por uma jovem . Outras peças : Farsa dos almocreves , Farsa do escudeiro etc .
peças religiosas : Auto da Mofina Mendes ( ou Os Mistérios da Virgem ) , cujo simbolismo fundamental é a oposição entre a transitoriedade das coisas terrenas e a esperança trazida aos homens pelo mistério da Encarnação ; Auto da alma, que apresenta o drama da luta da Alma humana na sua peregrinação terrena . Se ela não encontrasse proteção na "Santa Madre Igreja "teria cedido às seduções do diabo e perdido a vida eterna ; Triologia das barcas , composta de Auto da barca do inferno , Auto da barca do purgatório , Auto da barca da glória . Estas peças mostram as almas dos mortos à espera das embarcações que as levarão ao destino final . O ponto central é a acusação e defesa das almas nos diálogos com o diabo e com o anjo . A sátira social é marcante no Auto da barca do inferno . Outras peças : Breve sumário da história de Deus , auto da sibila Cassandra , Auto da feira , Auto da fé etc .
Há ainda outros tipos de peças , que podem ser reunidas da seguinte maneira : peças de temas romanescos , tais como Amadis de Gaula , D.Duardos e Comédia do viúvo , em que o assunto é extraído geralmente das novelas de cavalaria , tão populares naquele tempo ; autos pastoris , como Auto da visitação , Auto pastoril castelhano , Auto dos reis magos etc . , que colocam em cena pastores e pastoras , quase sempre desenvolvendo algum motivo religioso ; peças alegóricas , como Nau de amores , O Templo de Apolo , Cortes de Júpiter etc . , que são fantasias de assuntos variados .